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Entre julho e dezembro, a costa brasileira recebe duas ilustres visitantes: a baleia-franca-austral e a baleia-jubarte, que utilizam os mares do Brasil para se reproduzir. Uma oportunidade perfeita para ver os grandes mamíferos em seu hábitat natural.
Você já se imaginou a cerca de cem metros dos maiores mamíferos da Terra? Uma modalidade que está crescendo muito na América Latina pode ser praticada no litoral brasileiro: o whalewatching ou, em português, observação de baleia. Durante o segundo semestre do ano, a costa brasileira hospeda duas espécies que utilizam as águas calmas dos mares para se reproduzir: a baleia-franca-austral (Eubalaena australis) e a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae). Esta é uma ótima oportunidade para se praticar a observação das espécies.
De acordo com o presidente da Coalizão Internacional da Vida Silvestre (IWC/Brasil) - entidade mantenedora do Projeto Baleia Franca - José Truda Palazzo Jr., o "whalewatching é nada mais do que a observação desses animais com finalidade de lazer e educação ambiental".
O número de exemplares presentes na costa brasileira neste período é relativamente grande, facilitando sua visualização. Entretanto, há pontos específicos onde o número de baleias é maior. De acordo com Instituto Baleia Jubarte, a estimativa populacional da espécie jubarte é de 6.251 animais na costa brasileira, do Rio Grande do Norte até São Paulo. Deste total, 84% está concentrado no Banco de Abrolhos, na Bahia, sendo esta a principal área de reprodução da espécie no Atlântico Sul Ocidental.
Já a baleia-franca-austral ocorre em número menor. A bióloga Karina Groch, coordenadora do Projeto Baleia Franca, explica que a população que visita o Brasil é composta de cerca de 500 indivíduos. "Porém, em função do ciclo reprodutivo, elas não freqüentam a costa brasileira necessariamente todos os anos, mas a cada três anos. Ou seja: pode-se dizer que esses 500 indivíduos se dividem em três grupos (de tamanho não igual), cada um freqüentando a costa brasileira a cada três anos. As baleias que estão aqui este ano são potencialmente as mesmas que vieram em 2005, e teoricamente só retornarão em 2011", diz Karina.
A baleia-franca-austral ocorre entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, principalmente na Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, que ocupa parte do litoral sul do estado de Santa Catarina. A temporada reprodutiva da espécie no Brasil é de julho a novembro, mas o melhor período para observação é entre a segunda quinzena de agosto e primeira quinzena de outubro, quando um maior número de indivíduos costuma estar na região da APA da Baleia Franca, permanecendo por vários dias nas enseadas.
O interesse pela prática de observação de aves está crescendo no Brasil e na América Latina. Segundo o relatório da Whale and Dolphin Conservation Society, "Estado do Avistamento de Cetáceos na América Latina", a América Latina receberá mais de um milhão de pessoas interessadas em avistar cetáceos este ano, o que mostra o potencial crescimento dessa atividade. Ainda de acordo com o relatório, o Brasil está em segundo lugar entre os países com maior número de observadores de cetáceos, perdendo apenas para a Argentina.
Benefícios para conservação
Para a turismóloga Sandra Ferreira, que atua no Projeto Baleia Jubarte, a observação de baleias "ajuda a preservar as espécies em seu hábitat, pois diferente da caça, o turismo de observação de baleias, se conduzido dentro da lei, não obriga os animais a abandonar sua área de reprodução e alimentação".
O biólogo Sérgio Cipolotti, também do Projeto Baleia Jubarte, ressalta as diferenças nos benefícios trazidos pela caça e pela observação de baleias. "Em vez de resultar na concentração de renda na mão de poucos, como ocorria na caça à baleia, o turismo de observação de baleias resulta na geração de benefícios econômicos para uma extensa parte das comunidades locais nas regiões onde são realizados, operadores turísticos, hotéis, restaurantes, lojas de artesanato, se beneficiam do fluxo turístico, cujo retorno é socialmente mais justo do que se as baleias fossem mortas e apropriadas para gerar lucro de uns poucos industriais".
Além disso, Truda ressalta que, se bem conduzida, a observação de baleias tem um forte componente educativo, chamando a atenção dos praticantes para a necessidade de se proteger os oceanos.
Para praticar a observação de baleias, é importante operar dentro das normas de aproximação definidas na legislação brasileira. Outros cuidados são importantes, como "ter sempre a bordo uma pessoa capacitada, que conheça bem o ecossistema local e a espécie observada; informar os turistas sobre as regras de aproximação; evitar que os animais interrompam suas atividades de natação, amamentação, reprodução, repouso, etc.", ensina Sandra Ferreira.
Conquistas e necessidades de melhorias
Em 1996, o IBAMA criou a Portaria nº 117, alterada pela Portaria nº 24 de 2002, que estabelece normas para observação de baleias em toda a costa brasileira. O objetivo é garantir que a prática do whalewatching não prejudique a espécie e seu ciclo reprodutivo. Isso garantiria a preservação das espécies, assegurando aos futuros visitantes a mesma inesquecível experiência de ver as baleias em seu ambiente natural sem que elas tenham de fugir à sua curiosidade.
"O Brasil desenvolveu ao longo dos últimos anos uma das melhores legislações de regulamentação da atividade, além de ter criado diversas Unidades de Conservação parta proteger o ambiente no qual os cetáceos se inserem e a atividade de observação é desenvolvida", explica Truda.
Apesar da regulamentação na prática de observação desse animal, Truda explica que há falhas. "A fiscalização ainda é deficiente e, em especial, não há controle de qualidade sobre as informações educativas que são prestadas pelos operadores comerciais. Também precisamos ampliar as áreas marinhas protegidas com ocorrência de cetáceos, para assegurar a continuidade de sua presença em nossas águas". Sandra Ferreira concorda que ainda há muito a ser melhorado, principalmente no trabalho de informação e fiscalização junto às operadoras de turismo e na criação de unidades de conservação marinhas.
O Brasil poderá ter mais benefícios econômicos, sociais e principalmente ambientais com a observação de baleias e outras espécies se houver um esforço de políticas públicas que promovam o ecoturismo no Brasil de forma ambientalmente correta. "Ainda temos muito que caminhar para que o ecoturismo no país atinja o nível de outros países latinos como Costa Rica, Chile e outros", finaliza Truda.
Apoio a pesquisas
A Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, por meio de seu Programa de Incentivo à Conservação da Natureza, já apoiou projetos que estudam essas espécies de baleia em seu período migratório de reprodução, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no caso da baleia-franca-austral; e no Arquipélago de Abrolhos, no caso da baleia-jubarte.
Saiba mais
Acesse o site do Instituto Baleia Jubarte e do Projeto Baleia Franca e saiba mais sobre a observação de baleias e sua importância para a proteção das espécies.
Fonte: Fundação O Boticário
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